terça-feira, 17 de abril de 2012

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Gotas da Índia

A filosofia, lá longe, desde os gregos, sempre se questionou até onde a gente pode se fiar nos sentidos para conhecer as coisas.  Como, na Índia, verdade existe para ser desmentida, a gente desiste de conhecê-la, e fica só com os sentidos. Isso parece resolver a questão, parece - ah, se ao menos os sentidos nos dessem algum conforto!  Nem isso: a gente frequentemente não só duvida do que está vendo, mas duvida da própria percepção - eu estou realmente vendo? Na Índia, as sensações são sensacionais – de assombrar gregos, Descartes, e quantos mais falarem em nome da razão. A gente diz e rediz: a Índia é mesmo incredible, parece não existir. E essa sua incredibilidade arrasta de roldão nossas aparentes certezas: a gente se vê desamparado, sem saber que rumo tomar, no meio do caos. Ou melhor, do trânsito da Índia.

Já falamos um pouco a esse respeito. É só chegar, se deparar e se assustar. Mas depois do susto inicial – o primeiro, o segundo, o terceiro - a gente vai aos poucos se familiarizando e disputando o asfalto, corpo-a-corpo, com tuc-tucs, ônibus, carros, bicicletas, burros-sem-rabo, cabras, vacas e quem mais vier. De vez em quando, elefante e camelo entram no páreo também. O trânsito na Índia é o fluxo de tudo e de todos, numa condensação barulhenta e trepidante de tempo e espaço:  o aqui e agora é a ordem natural da circulação. 


Em qualquer metrópole do mundo, imaginar um só cruzamento sem sinal de trânsito, já é suficiente para provocar um colapso urbano, um tumulto absurdo. Literalmente absurdo - ab surdus, que provoca surdez. Na Índia dos sinais de trânsito quase inexistentes, do aqui e agora valendo para todos - humanos, veículos, animais - como única lei do asfalto, dos para-choques de caminhões onde se lê: PLEASE HORN ou BLOW HORN (Buzine), pode-se imaginar o quão absurdo, ensurdecedor, o trânsito é. Porém, mais absurdo do que as buzinas, de ensurdecer verdadeiramente qualquer razão, é isso: no trânsito caótico da Índia, a gente não vê batida, atropelamento, briga, discussão, insulto, sequer um palavrão. (!!!) Enigma dos mais assombrosos: a (des)ordem civilizada do trânsito indiano.  


Razão, onde estás que não responde?  


Blow Horn: buzine



domingo, 15 de abril de 2012

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Gotas da Índia





Banheiro na Índia é o rei das (de)pendências: tem sempre alguma coisa faltando, ou onde não se imagina estar. Pelo menos para a gente que vem de fora. 

Papel higiênico é cultural, não há mesmo razão de ter: para que papel quando se tem um baldinho? Mesmo assim, qualquer birosca tem um rolo para vender: os mais precavidos levam um dentro da bolsa. Na falta, é só fazer diferente: as mãos têm infinitos dons. Nos banheiros públicos, em vez de vaso sanitário, um buraco no chão - é o indian style de deixar a vida fluir; nos hotéis, o western style tem o seu trono garantido. Muitas vezes a descarga vacila, fraqueja, falta pressão: basta ligar para a recepção. Uma hora alguém aparece para consertar, ou não. Aproveita e pede a toalha de banho. Chuveiro é fora do comum - nada de ficar escondido, encolhido no canto: seu lugar é de destaque, às vezes, no meio do banheiro, outras vezes, disputa o espaço com a pia ou a privada. Mais prático assim: pode se fazer tudo ao mesmo tempo. Box? Cortina? Que nada: banheiro é propício às monções – deixa a água inundar, quanto mais, melhor. Mais para fria do que quente: deve ser por recomendação ayurvédica. Na dúvida, um toque no recepcionista e um pouco de paciência, podem fazer a temperatura subir, devagarzinho. Seja como for, chuveiro é coisa de estrangeiro: dada a estatura média do indiano, uma torneira é mais do que suficiente. Ah... torneiras!... Como esquecê-las? Volta e meia tem uma fazendo plic ploc plic ploc... Delícia de barulhinho quando se quer dormir... 

Exagero? Sem dúvida: dando um pouco de desconto, a gente acerta na verdade. Para ser desmentido logo após, é claro: a gente não cansa de repetir que, na Índia, não há verdade que resista. Sobretudo, diante de certos refinamentos, para além da imaginação: que tal pétalas vermelhas, flutuantes, perfumadas, dispostas delicadamente em tigelinhas brancas, pousadas sobre o mictório? 

Realmente, a Índia não é feita para quem não gosta de surpresas.
 




quinta-feira, 12 de abril de 2012

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15. Princesa





Enquanto aguardávamos à mesa o pedido que nunca chegava, uma indiana, vassoura sem cabo à mão, varria o restaurante, rente aos nossos pés, curvada ao chão - um movimento sinuoso para lá, outro para cá, um para lá, outro para cá - uma onda mansa e silenciosa. Detive-me nela, como viera a mim, começando por baixo, o mais próximo do chão: sandália de borracha gasta, unhas pintadas de rosa, anéis de prata em cada um dos dedos do pé, tornozeleira rendada com pequeninos pingentes. E fui subindo: sári preto, estampas geométricas em laranja e branco, pulseiras douradas nos braços, brinco no nariz e nas orelhas; a marca rubra na testa, no sulco do cabelo; a cabeça envolta pelo sári negro, cor de seus olhos. Interrompi com cuidado a ondulação varredoura no chão; num gesto de mão, pedi-lhe em silêncio que me a deixasse fotografar. Levantou-se, sem vacilar, sem palavra dizer, volteou o sári ao redor do corpo, ajustando-o com fina discrição. Ergueu a cabeça, fitou-me reto: olhos valentes, sorriso em polpa, porte elegante, natural, nobre. Aguardou serena, íntima da eternidade. 

Ali, diante de mim, nem varredora, nem mulher: uma princesa, isso sim. De verdade. Não dessas intituladas, herdeiras, fingidas, molengas, soberbas, aureoladas, mas que enfrentam o duro, o seco, o áspero, o sujo, o pó, e que, por uma graça misteriosa, uma leveza absolutamente inexplicável, de tão fulgurantes, parecem ter pacto com as estrelas. 

Feita a foto, curvou-se ao chão, voltou a varrer. Sua alteza, soberana majestade.

Na Índia é assim: as princesas não vêm do alto, elevam-se do chão.

E a ele retornam, porquanto este, é seu reino: princesas reinam no chão da Índia.









quarta-feira, 11 de abril de 2012

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Gotas da Índia





Na Índia, embora o hindi e o inglês sejam as línguas oficiais, existem nada menos do que vinte e uma línguas regionais, as quais predominam em suas respectivas regiões, com estatuto de língua oficial. Por exemplo, em Chennai se fala tâmil; em Kerala, malaiala; em Mumbai, marata; em Calcutá bengali; e por aí vai... Ou seja, a Índia conta ao todo vinte e três línguas oficiais – vinte e três! – muitas delas com sistema de escrita próprio. Na maioria das escolas, o sãnscrito, língua da religião hindú, é dado. Como se tal diversidade não bastasse, há mais de quatrocentos dialetos; sem esquecer, é claro, que em Goa se fala um pouco de português, em Pondichérry, de francês: a Índia é um saco de línguas, quase uma torre de Babel. 

Por isso, antes de falar da Índia, é bom saber que língua a gente está falando, para não morder a própria língua. No mínimo, não passa por linguarudo. Alguém tem dúvida de que a Índia não existe? Basta ouvir as Índias...


Sinalização em Nova Delhi: hindi, inglês, punjabi e urdu
Minha vida é minha mensagem - M. K. Gandhi
Panaji, estado de Goa
Pondichérry, estado do Tamil Nadu
"Dirija com calma e cautela": alguém adivinha? - Chittorgarh, estado do Rajasthan
Encabeçando a lista: hindi, kannada, tâmil, télugo e malaiala


quarta-feira, 4 de abril de 2012

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Gotas da Índia





Na Índia, há muitas marcas de Vegan toothpaste: pasta de dente vegetariana. Nas embalagens vem escrito 100% Vegeterian ou Pure veg: isso é o que se pode chamar de um vegetarianismo com unhas e dentes.





terça-feira, 3 de abril de 2012

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Lições à mesa indiana (16)



Lição 16:


A lição das lições: à mesa indiana, a paciência se exaure, sabores nos inflamam, aromas nos invadem, impurezas nos rondam, tudo é um assombro. De tirar o fôlego. Às vezes o apetite. Mas não a paixão, esta que nunca esmorece, tampouco se aquieta, pelo contrário - da mesa às ruas, ela corre à nossa frente como que a nos dizer: vem, vem...vem por aqui...vem conhecer algo que vocês nunca viram...





segunda-feira, 2 de abril de 2012

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Lições à mesa indiana (15)



Lição 15:


Last but not least: há um monte de gente que vem à Índia e fica horrorizada, falando de sujeira, falta de higiene, contaminações, infecções, doenças intestinais: a lista de ocorrências funestas parece não ter fim. Há até quem perca tempo com coisas do tipo: “Hoje foi meu nono dia trancada no banheiro” - escreve uma moça em seu blog, com a aparente desenvoltura de quem torna público algo muito interessante e fecundo. Mais: como se seus desarranjos privativos fossem a prova de que experienciou nas entranhas a essência da Índia. Pode ser que eu esteja enganado, mas quem se engana é ela. A Índia é fabulosa demais para a gente perder tempo com vicissitudes intestinas que só dizem respeito a quem as vive. Fora isso, são bobagens. Quem olha demais para o seu umbigo não vê a Índia: pode até ser que, em propaladas idas e vindas ao banheiro, a deixe escapar descarga afora.

Nada de terror. Alguns cuidados efetivos bastam. Água, só mineral, e lacrada, é sempre bom verificar: acontece de estar sem lacre, é raro, mas acontece. Está na rua, bateu aquela vontade de tomar uma bebida refrescante, gostosa? Pede um Slice, suco de manga natural em garrafa: um verdadeiro néctar dos deuses, à venda em qualquer birosca, praticamente pelo mesmo preço de um refrigerante. Vir à Índia e não provar iogurte e lassi, já nos aventuramos em dizer: é quase como não vir à Índia. Cada um decide quais aventuras quer e não quer ter: nós tomamos lassi todos os dias, vários ao dia. Sempre em hotel ou restaurante, nunca nas ruas: pode ser puramente psicológico - muito provavelmente é: a gente nunca sabe com que gelo o lassi é batido – mas, seja como for, nos sentimos mais imunes. Um pouco de ilusão ajuda a viver, e deixa a gente se refestelar em paz na poltrona, saboreando um lassi. À volta ao hotel, depois de andarilhar no meio da multidão e do caos, a hora do lassi é para nós mais do que um mero momento de prazer: ele é vital para a gente se reequilibrar e se sentir minimamente em harmonia. Momento inestimável: na Índia, a gente aprende a valorizar cada segundinho desse.

Alimentos só cozidos, nada cru, nem mesmo aquele tomatinho viçoso, com a cara mais inofensiva do mundo. Frutas? Não há como resistir a tanta fartura: basta lavar. Os deuses adoram, nós também. Outro dia, no “breakpast”, deparamo-nos com um enorme tacho de mamão cortado, maduro, bonito: comer ou não comer? - eis o dilema. Comemos: algum risco a gente tem que correr, só os mortos estão a salvo. Carne só bem passada: não abrimos mão. Do purificador Himalaya, também não. Sorte, claro, sempre ajuda. Ganesha, nem se fala: ele nos quer saudáveis, alegres e brincalhões à sua própria imagem. 

Se mesmo assim complicações orgânicas advierem, nada de pânico - farmácias (chemist shops) são o melhor conselheiro na Índia: com um bilhão e trezentos milhões de intestinos em ação, elas sabem perfeitamente o que fazer. 

As belezas da Índia são infindáveis: não há tempo a perder, só a compartilhar - e a amar:  tão intensamente quanto formos capazes.


Fabulosa demais: nada de bobagens nem terror
Água: só mineral e lacrada
Suco de manga natural em garrafa: néctar dos deuses
Hora do lassi: momento vital de reequilíbrio e harmonia
Frutas nas ruas: como resistir a tanta fartura?
Chemist shop: melhor conselheiro na Índia
Belezas infindáveis: não há tempo a perder, só a compartilhar e a amar


sexta-feira, 30 de março de 2012

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Lições à mesa indiana (14)



Lição 14:

Uma lição crucial: a higiene. Na Índia, para quem viaja por muito tempo, é impossível ficar cheio de dedos, melhor ainda não tê-los, senão acaba morrendo, cheio de dedo e fome. O que se costuma chamar de higiene, não é o forte daqui: ponto final. Não é preciso perder tempo epilogando sobre isso: chover no molhado para quê? Vale a lição de nossa guia cor-de-rosa: “Se vocês sentirem que é para comer, vocês comem, se sentirem que é para beber, vocês bebem... Sentiu? Vai lá e toma! Entrega para Ganesha”. Certíssimo: na Índia tem que ser assim mesmo. Na maioria dos restaurantes, se a gente for primeiro ao banheiro e, se calhar, no meio do caminho, der uma espiadela na cozinha, perde o apetite. Para minimizar riscos, fazer o pedido antes pode ser astucioso: no caso de perder a fome depois, a comida já foi pedida. E sejamos realistas: um naan quentinho e uma cumbuca de arroz basmati sobre a mesa, são suficientes para reabrir qualquer apetite. Até os mais enjoados.

Proteção dos deuses à parte, precaução nunca é demais. Lavar as mãos também não. Claro que não é possível viajar com uma torneira do lado, até porque na Índia, a água vem mais facilmente do poço. Fazer o quê? Um francês companheiro de voo, ao despedir-se de nós, tirou do bolso um pequeno frasco e fez-nos dom benfazejo:

- Tenez, c’est pour vous...vous en aurez besoin.

Precisar? A gente só não fazia ideia do quanto: um líquido purificador de mãos, de fabricação indiana, cujo perfume e refrescância são tão deliciosos, que toda vez que o utilizamos, não resistimos em pousar a palma das mãos sobre rosto, nem que seja por alguns segundos: dá quase para levitar. Vende-se em qualquer farmácia. No rótulo vem escrito: mata 99.9% dos germes: 0.1% a gente entrega fácil para o Ganesha. É de grande valia: antes de levar qualquer coisa à boca, que tal uma purificaçãozinha? Ritual dos mais elevados: a Índia nos conclama à purificação, especialmente após o manuseio das notas de menor valor – dez, vinte, cinquenta rúpias – enegrecidas de sebo, parecendo se desintegrar. Na confusão da bagagem em Chennai, acabamos perdendo o francês de vista, sem pegar seu contato. Somos-lhe tão gratos que, na impossibilidade de fazê-lo diretamente, prestamos-lhe aqui homenagem, divulgando o nome e a marca do produto: Pure Hands (Herbal Hand Sanitizer, Himalaya). O que parecera ser apenas um mimo fresco e perfumado do francês, acabou virando uma companhia indispensável: a gente não dá um só passo na Índia sem o Himalaya dentro do bolso.

O melhor de tudo, acredite quem quiser: flora e fauna intestinais na mais perfeita harmonia.

E a Índia toda em nossas mãos - com seus milhares de deuses e germes - do jeito que ela é.

Lava louças no hotel em Khajuraho


Purificador de mãos: companhia indispensável



quinta-feira, 29 de março de 2012

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Lições à mesa indiana (13)



Lição 13:

Uma nota remarcável: de trambique, não temos estória nenhuma a contar, muito pelo contrário; vez ou outra que esquecemos algo sobre a mesa – um par de óculos, o guia, a máquina fotográfica - vem sempre o garçom atrás gritando: Sir! Sir! Mesma coisa com o dinheiro que desavisadamente deixamos cair no chão: os indianos demonstram correção. Relatos de outrem, sobre roubos e falcatruas na Índia, dirão exatamente o contrário: ouvimos vários deles. Conosco, porém, isso não aconteceu: que Ganesha nos preserve.

A conta nos restaurantes vem sempre justa, nem para mais, nem para menos. O troco também. O que, além de reconfortante, vira um passatempo à mesa: dispostos a fazer da espera qualquer coisa que não seja se aporrinhar, a gente até brinca em adivinhar o valor da conta. Quanto? - já estamos craques em acertar, embora rúpias sempre escapem: difícil é antever com precisão quando é que a conta vem.

Pode ser a qualquer hora, até mesmo quando a gente já está dormindo. Não à mesa, de tanto esperar, mas dormindo de verdade. Quarto de hotel em Mumbai, 22 horas, uma ligadinha para o room servicecould we have two lassis, please? Passado um tempo, toque de campainha: lassis sobre a mesa, o garçom vai-se embora. Depois da delícia, banho, cama e sono. Não sei que horas eram, quarto às escuras, dormíamos: toque de campainha. Provavelmente engano, pensamos; não era - o garçom, este sim: Hello Sir! – estendeu a conta, pediu para assinar. We are sleeping! Do you know what time it is? – protestei. Sorry, Sir... sorry Sir – repetiu sorrindo, num balançar de cabeça, aguardando a assinatura feito um poste. Detalhe: não trouxe caneta. A campainha nos acordando no meio da noite, um garçom à porta, a conta dos lassis para assinar, a falta da caneta: deve ter sido um sonho. Cabe interpretação: por que a conta vem horas depois do pedido? Difícil arriscar um palpite. Achar uma caneta no escuro também.

Mais ainda, quem tenha troco. Nos restaurantes, sejamos justos, troco não é problema, mas comerciantes em geral - incluindo motoristas de taxi e tuc-tuc - dificilmente o têm. À luz do dia, uma hora ou outra, o troco acaba aparecendo, mas tarde da noite ou de madrugada, se transforma num braço de ferro. Ainda temos dúvida se é por astúcia ou desleixo. Talvez os dois, sabe-se lá: na Índia uma coisa raramente exclui a outra. Seja como for, é bom se precaver e andar sempre com um estoque de notas de menor valor na carteira. No mínimo, evita aquela ida do comerciante “logo ali do lado” – à loja do irmão, que foi à loja do primo, que saiu com o tio, que por sua vez foi atrás do cunhado – já viu: a busca do troco é feita à custa adicional de uma espera quase sem fim. Isso quando o comerciante não retorna com a nota com que saiu na mão, aberto em sorriso e negociação, fazendo uma proposta de “amigo para amigo”:

- My friend, let's do something, you take one more piece that you like and I will do a good price for you… you are my friend, if you are happy, I’m happy… 

Ah, quanta felicidade! Uma felicidade sem preço como essa, quem poderia imaginar? Além, muito além, da conta


quarta-feira, 28 de março de 2012

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Lições à mesa indiana (12)


Lição 12:


Os indianos adoram gorjeta, fazem qualquer coisa por um baksheesh ou tips. Qualquer coisa mesmo. Num país onde mais da metade da população vive com menos de dois dólares por dia, é fácil entender o porquê: para um indiano comum, gorjeta não é - parodiando os franceses – um pourboire, mas sim um pourvivre. Na Índia, mais do que em qualquer outro lugar, corre-se atrás desse “paraviver” como de água no deserto. Elementar.

Nessa corrida, além dos que estão a nos prestar serviços de fato, há também os que estão a nos “servir” independentemente da nossa solicitação ou vontade, o que de certo modo é compreensível: o simples fato de ser estrangeiro, estar viajando, sentado à mesa de um restaurante, máquina fotográfica na mão, faz de nós milionários. Nada mais normal. O que é muito peculiar é a maneira como põem em prática essa percepção: salta aos olhos a abordagem insistente, teatral, bajulatória, pretensamente zelosa, e mais, a subserviência no limite da degradação. 

Situação corriqueira, uma simples ida ao banheiro do restaurante. Pronto: alguém já se apressa em abrir a porta, faz uma saudação - “hello Sir!”, acompanha nossos passos, mede nossos gestos, aguarda o tempo que for preciso, corre para abrir a torneira, assiste ao lavar das mãos, à nossa imagem no espelho, estende-nos uma folha de papel - duas, três – e por fim, como uma sombra suplicante, se acomoda silenciosamente ao nosso lado à espera de rúpias, ou clama pungentemente por elas estendendo as mãos. Conviver com isso, diariamente, a toda hora e lugar - principalmente na intimidade própria a um banheiro - mais do que incômodo, é muitas vezes opressivo. Fazer o quê? Paciência é sempre boa aliada, mas é falível também: quando não está disposta a colaborar e a pagar o preço, um obrigado firme pode facilitar a saída. Em hindi, dhanyavad ou shukria – duas palavrinhas boas de se memorizar e usar sem moderação: são providenciais.



terça-feira, 27 de março de 2012

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Lições à mesa indiana (11)


Lição 11:

Garçons, simplesmente. Ah, como esquecê-los? Fazem-nos provar como ninguém a elasticidade do tempo e a relativa ordem das coisas, tema de nossa lição 3. Esperar é preciso; paciência, a melhor guia; uma pitada de humor, nada mais salutar. Nem sempre o serviço é a contento, e não raro - havemos de confessar - somos tentados a protestar no grito e na marra: ninguém é de ferro. Os garçons também não: mas são afeitos à solicitude, à fala mansa, à sandália que se arrasta, ao leva e trás devagar dos objetos, um a um, como peças de um leilão - primeiramente um bule, depois uma xícara, uma colher que faltou, um pires que se perdeu no caminho, um açucareiro esquecido lá dentro. Nesse suceder de incertezas sem pressa, tudo acaba se arranjando.

E nós, aprendendo - dia a dia, pouco a pouco – a por de lado nossos padrões e exigências habituais em razão de uma consciência muito simples: a maioria dos indianos que nos serve não tem nenhuma formação, muito menos a de garçom. Portanto, por pior que o serviço nos pareça, em geral ele está sendo prestado por uma pessoa muito humilde, beirando a submissão, de pouca ou nenhuma instrução, mas quase sempre de boa-vontade, bem humorado, e com um olhar que só vemos na Índia. O que a faz já merecedora de nosso respeito e gratidão.

Um garçom trouxe-nos um cappuccino à mesa: xícara transbordando, pires derramado, colher afogada. Olhei para ele, dedo apontado para a xícara, pedi-lhe:

- Could you please change the cup?
Ele, surpreso, olhou para a xícara e perguntou:
- What?
Repeti:
- Could you please change the cup? Please…
Sem entender a razão do meu pedido, olhando para a xícara sem ver o que eu via, o rapaz indagou:
- Why?
- Don´t you see the cup? – insisti.
- Yes Sir... why?

Nesse instante - o instante de um por que indefeso, ingênuo - a xícara derramada já não tinha tanta importância para mim. Passei a ver a Índia de forma diferente. E a mim mesmo também. 

No final das contas, todo mundo tem razão: a lua é sempre vista de algum lugar, mas não está em nenhum deles. O universo é sem verdade, rico de verdade.

Khajuraho

quinta-feira, 22 de março de 2012

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Lições à mesa indiana (10)


Lição 10:

O álcool – sharab em híndi - é liberado na Índia, com exceção do estado de Gujarat, a oeste, que faz fronteira com o Paquistão. No hinduísmo, contrariamente ao islamismo, não há nenhuma restrição ao sharab, apenas em cidades sagradas como Rishikesh, Haridwar e Pushkar, onde é proibido. Normalmente, está presente nas celebrações, tais como casamentos e aniversários, e também durante importantes festivais hindus: o Diwali, festival das luzes, entre outubro e novembro, cujas milhares de lamparinas acesas – as diyas, que dão nome ao festival - simbolizam a vitória do bem sobre o mal em cada ser humano; e especialmente o Holi, festival das cores, que celebra em março, com muita bebida, comida e música, a chegada da primavera - adultos e crianças atirando e aplicando uns nos outros pós multicoloridos chamados gulal. Indiano é muito festeiro: uma bebericadinha não pode ficar de fora - beber é uma forma de celebrar o fervor, assim como brincar e dançar. Todavia, de acordo com o calendário hindu, há períodos de jejum importantes durante os quais a abstinência alcoólica é observada, sobretudo pelos mais ortodoxos.

Curiosamente, não se veem botecos nem pessoas vendendo ou bebendo álcool em lugares públicos: muito raramente vemos um alegrinho trocando as pernas. Em muitos restaurantes e hotéis, álcool não é oferecido. Em parte talvez isso explique - se é que tem explicação – porque no trânsito caótico da Índia, a gente não vê batida, briga, discussão, insulto, nem mesmo palavrão. Paradoxo dos mais assombrosos da Índia: a desordem civilizada. Não há sociologia que dê conta. O baixo teor etílico pode ajudar. Quando indagados a esse respeito, os indianos responderam-nos que na Índia só se costuma beber à noite, em casa, antes do jantar, de preferência uísque - com soda ou água gelada - e rum. Homens apenas: mulher beber álcool não é nada bem visto, ela tem tarefas demais para cumprir em casa. Além das de fora, é claro. 

E os mais jovens, adolescentes? Um rapaz respondeu-nos que, em geral, eles bebem de tudo, mas que os pais, mesmo os que bebem, desaprovam que os filhos o façam:

- They say it’s bad to drink … So even the papas who drink, don't like their sons to drink …

É aquela velha estória: faça o que eu digo, não o que eu faço. Existe aqui também. Coisa mais corriqueira e banal. Mas, curiosa, foi essa sua revelação : 

- I drink almost everything. But the most interesting thing, My parents don't know it… I have never told them... I have never drunk with my Dad or any of the uncles, not even beer…

Interessante mesmo, interessantíssimo até: tais palavras parecem sugerir que, na Índia, a autoridade paterna está longe de conhecer um declínio. Pelo menos dentro de casa, à vista dos pais. De se fazer inveja a muitos ocidentais nostálgicos.

Vinho, na Índia, não é muito comum e relativamente difícil de encontrar: é preciso licença para vender. Evidentemente, às finas mesas de Delhi e Mumbai, difícil é escolher dentre os melhores do mundo. As metrópoles da Índia tem de tudo: do lixo ao luxo. Luxo mesmo. Nashik, no estado de Maharasthra, e Nandi Hills, no de Karnataka, são as duas grandes regiões vinícolas do país. Nem o vinho escapa da marca do divino: além de Nandi, touro sagrado de Shiva, que dá nome à montanha, o vinho Sula, fabricado em Nashik, traz no rótulo o deus Surya – que significa “sol” – uma dos aspectos de Shiva e Vishnu. 

A cerveja indiana é ótima: a Kingfisher Premium, cuja logomarca – um lindo pássaro de asas azuis – é onipresente na Índia, sobrepujando o leão de sua rival australiana Lion. Pensamos que fosse um beija-flor: martim-pescador é seu nome. Só na Índia para um pássaro bater um leão. 

E para os deuses não torcerem a cara para o álcool.


Nandi Hills (Karnataka), colina vinícola
Vinho fabricado em Nashik (Maharasthra)
Logomarca de cerveja com o martim-pescador: onipresente

quarta-feira, 21 de março de 2012

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Lições à mesa indiana (9)


Lição 9:


Os indianos parecem gostar muito de doces: nas ruas, carrocinhas trafegam vendendo montes deles, enormes tachos ricos em açúcar, cores e calorias são raspados sem parar. O interessante é que, na Índia, doce não é propriamente uma sobremesa, faz parte dos rituais do dia a dia. O chá, por exemplo, é frequentemente acompanhado de um docinho, um sweet sombu que seja. Ir à casa de alguém de mãos abanando não faz parte da cultura local: doce é sempre bem-vindo. Nos templos, nem se fala: deuses adoram um docinho. Noivou? Vai se casar? Nasceu? Conseguiu um emprego? Comprou um carro? Casa nova? – tudo passa pela distribuição de doces.
Curiosamente, apesar da fartura de frutas na Índia - principalmente manga, banana, mamão, e nas regiões costeiras, coco – os confeiteiros indianos parecem fazer pouco uso delas. Salada de fruta quase não se vê, excepcionalmente no Sul onde vende-se nas ruas. Em Goa, onde o cabo da panela tem uma certa pegada portuguesa, um cardápio propunha uma sobremesa feita com banana. Naturalmente, não deixamos passar a ocasião – esta, por sua vez, não nos deixou uma lembrança indelével. 

Que tal um ice cream indiano?  Um indiano corrigiu-nos:

- Ice cream is not from India, but kulfi is: it's quite similar to ice cream, but more dense, creamy, tasty, absolutely delicious.

Ficamos com água na boca. Até agora. Falta só encontrar: por que desígnios tal delícia em nosso cardápio nunca está? Enquanto isso, temos provado ice cream com gosto e cor tão sintéticos que na primeira colherada a gente nem lembra mais o sabor que pediu. Com exceção de uma sobremesa em Agra: sorvete de chocolate, pistache e manga, entremeado de polpudas lascas de manga. Foi-se o nome do restaurante, ficou o da sobremesa: honeymoon. Um nome como esse, difícil esquecer. 

O arroz doce – chamado kheer – é a sobremesa indiana mais popular: está em toda parte, sobretudo nas festividades religiosas, tanto hindus quanto muçulmanas. É literalmente arroz de festa.

Rasgulla - um doce originário do estado de Orissa - é também muito popular em toda a Índia: é feito de bolas de chhena (queijo fresco indiano semelhante ao paneer) e sêmola, fervidas em calda de açúcar. Normalmente o rasgulla é branco, mas pode também ser preparado com várias essências, adicionado de pistache, uva, caju, cardamomo, açafrão, que lhe dão sabores e cores diferentes; é servido frio em geral. Quem resiste a essas bolinhas açucaradas até não poderem mais? Nesse mesmo registro, há o gulab jamun, de cor escura, feito de bolinhas de queijo de búfala e sêmola, frito em vez de cozido, servido quente, imbebido em calda de açúcar aromatizada com água de rosas. Daí seu nome: gulab, em persa, “água de rosas”. Em festas de casamento e ocasiões especiais, o gulab jamun não pode faltar. Laddu também não: mais “bolinhas” (tradução literal do sãnscrito ladduka) - feitas de farinha, manteiga, açúcar e aromatizantes - as preferidas de Ganesha. Dulcíssimo paraíso onde deuses esbaldam-se também.

Há um outro doce muito famoso, o petha, originário de Agra, sempre circulando nas ruas, no vai e vem dos vendedores ambulantes: é feito com abóbora cozida em água açucarada, em seguida aromatizada com essência de rosa, cardamomo ou açafrão. Cortado em cubos, como dadinhos, parece feito para criança brincar. Nas ruas, muito pé de moleque também: chikki, feito como o nosso, com amendoim e rapadura, mas adquirindo uma variedade enorme, de acordo com os ingredientes adicionados: castanha, açafrão, coco, amêndoa, pistache, cajú, até pétalas de rosa, sementes de erva-doce, gergelim e melão. Pé de moleque, na India,  é “chikki”  mesmo.

Nesse mundo indiano de doçura, a gente dá voltas e mais voltas, até recair no mesmo ponto: nada mais delicioso e refrescante do que os iogurtes gelados com hortelã, ou um simples lassi. Os temperos flamejantes da India clamam por eles. Nós arriscaríamos até dizer que vir a India e não provar o lassi, é quase como não vir à India...

Kheer, arroz doce: o mais popular
Rasgulla
Gulab jamum: aromatizado com água de rosas
Ganesha segurando um pratinho de laddu numa das mãos
Laddu: o preferido de Ganesha
Petha: especialidade de Agra
Chikki: pé de moleque indiano
Nosso favoritíssimo lassi