quinta-feira, 12 de abril de 2012

6

15. Princesa





Enquanto aguardávamos à mesa o pedido que nunca chegava, uma indiana, vassoura sem cabo à mão, varria o restaurante, rente aos nossos pés, curvada ao chão - um movimento sinuoso para lá, outro para cá, um para lá, outro para cá - uma onda mansa e silenciosa. Detive-me nela, como viera a mim, começando por baixo, o mais próximo do chão: sandália de borracha gasta, unhas pintadas de rosa, anéis de prata em cada um dos dedos do pé, tornozeleira rendada com pequeninos pingentes. E fui subindo: sári preto, estampas geométricas em laranja e branco, pulseiras douradas nos braços, brinco no nariz e nas orelhas; a marca rubra na testa, no sulco do cabelo; a cabeça envolta pelo sári negro, cor de seus olhos. Interrompi com cuidado a ondulação varredoura no chão; num gesto de mão, pedi-lhe em silêncio que me a deixasse fotografar. Levantou-se, sem vacilar, sem palavra dizer, volteou o sári ao redor do corpo, ajustando-o com fina discrição. Ergueu a cabeça, fitou-me reto: olhos valentes, sorriso em polpa, porte elegante, natural, nobre. Aguardou serena, íntima da eternidade. 

Ali, diante de mim, nem varredora, nem mulher: uma princesa, isso sim. De verdade. Não dessas intituladas, herdeiras, fingidas, molengas, soberbas, aureoladas, mas que enfrentam o duro, o seco, o áspero, o sujo, o pó, e que, por uma graça misteriosa, uma leveza absolutamente inexplicável, de tão fulgurantes, parecem ter pacto com as estrelas. 

Feita a foto, curvou-se ao chão, voltou a varrer. Sua alteza, soberana majestade.

Na Índia é assim: as princesas não vêm do alto, elevam-se do chão.

E a ele retornam, porquanto este, é seu reino: princesas reinam no chão da Índia.









6 comentários:

Rohit disse...

Uma história rápida do épico indiano "O Ramayana"

Sita, a consorte do Senhor Rama, o avatar da deusa da riqueza, Lakshmi, o símbolo indiano feminista de auto-sacrifício, dedicação, pureza e verdade, na verdade era a filha da Mãe Terra. Sita foi descoberto em um sulco, quando o Rei Janaka arava como um ritual para assegurar a fertilidade da terra. Sita é simbolizada para ser o filho da Mãe Terra, produzido pela união entre o rei ea terra.
Quando seqüestrada pelo Ravana de Lanka, o Senhor Rama salva-la de volta e trouxe de volta à sua cidade, mas depois de provar sua pureza, ela foi convidada a submeter-se ao julgamento de fogo. O fogo não podia tocá-la porque ela era pura e um epítome da castidade. Mas ainda Rama abandona a Sita grávida, quando um de seus temas lança dúvidas sobre sua castidade e chamado Rama pusilânime. Sita deu à luz gêmeos Lava e Kusha, no refúgio do eremitério Sábio Valmiki. Depois que seus filhos crescem e se unir com seu pai e quando ela assegurou a aceitação de seus filhos por Rama, Sita procuraram refúgio final nos braços de sua mãe Terra. Ela implorou a Mãe Terra para libertá-la de um mundo injusto e de uma vida que raramente tinha sido feliz. A terra se abriu e dramaticamente a Mãe Terra apareceu e levou Sita embora para um mundo melhor.

Princesa de Janakpuri subiu da terra e voltou para dentro da terra simboliza a verdade, auto-sacrifício e da castidade.

Rohit

Sergio Viula disse...

Podia ter sido na Bahia... Com turbante branco, ela podia vender acarajé que nunca notaria a diferença. O Brasil é mesmo um país de todos, pelo menos de todas as cores e sabores. :)

Abração, amigão.

Viula

Anônimo disse...

Simplesmente sublime !
A observação, a princesa e a Índia cujo espírito promove este tipo de postura: sublime !
"Sublime, forcément sublime", como dizia Marguerite Duras.

MC

Marcella disse...

Claudio sua observação da Princesa Indiana foi de uma sensibilidade rara...
Quero agradecer esta postagem pois me fez ver que assim como a Kundalini se eleva do mais básico ao topo, somente princesas de verdade se elevam desta forma que vc descreveu...
Beijos

Anônimo disse...

Mando-te de novo meu comentário, pois, como a Marcella,
acho que somos um certo número de mulheres a poder se
beneficiar dessa capacidade da Princesa a se elevar ao topo
da maneira como ela falou ! E meu primeiro comentário acima, já o dizia!

Beijos de novo.
MC

dani cor de rosa disse...

Realmente incrível como pessoas simples na India tem esse olhar altivo, digno, elegante.

Percepção arguta a sua.

Parabéns.